sábado, 20 de abril de 2013

Garoa do Meu São Paulo

Garoa do meu São Paulo,
-Timbre triste de martírios-
Um negro vem vindo, é branco!
Só bem perto fica negro,
Passa e torna a ficar branco.


Meu São Paulo da garoa,
-Londres das neblinas finas-
Um pobre vem vindo, é rico!
Só bem perto fica pobre,
Passa e torna a ficar rico.


Garoa do meu São Paulo,
-Costureira de malditos-
Vem um rico, vem um branco,
São sempre brancos e ricos...


Garoa, sai dos meus olhos.

Mário de Andrade

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Ouvi umas 20 vezes essa semana…

Isso é que é swing. Uma semana cheia de notícas e situações confusas… mistura de liberdade. tristeza, raiva, fé, insegurança, desânimo, insatisfação, vontade, realização, liberdade, esperança, alegria… bom, sei lá. Viva a música, que realmente é o que me liberta desse mundo maluco!

Cannonball Adderley Quintet – “Walk Tall” live in Chicago

quarta-feira, 17 de abril de 2013

E agora, José?

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 16 de abril de 2013

Para começar a virada…

Peter Gabriel, sempre ele! A bateria de Manu Katche e o baixo de Tony Levin dão um molho especial à música de PG.

Peter Gabriel – “Red Rain” Live

Pois é…

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O Samba de Maria Luiza

É do cabelo amarelo
Dos óio cor de chuchu
Quando eu virar gente grande
Me caso logo com tu

O samba de Maria Luiza
O samba de Maria Luiza

O samba de Maria Luiza é bonito pra chuchu
O samba de Maria Luiza é bonito pra chuchu
Ela canta e ela dança, menina
O samba da Marilu, Marilu, Marilu, Marilu

O samba de Maria Luiza é bonito como o quê
E é por isso que o papai
Já tá apaixonado por você
Tá apaixonado por você Maria Luiza

Tom Jobim

domingo, 14 de abril de 2013

Cabo Machado

Cabo Machado é cor de jambo.

Pequenino que nem todo brasileiro que se preza.

Cabo Machado é moço bem bonito.

É como si a madrugada andasse na minha frente.

Entreabre a boca encarnada num sorriso perpétuo

Adonde alumia o Sol de oiro, dos dentes

Obturados com um luxo oriental.

 

Cabo Machado marchando

É muito pouco marcial.

Cabo Machado é dansarino, sincopado,

Marcha vem-cá-mulata.

Cabo Machado traz a cabeça levantada

Olhar dengoso pros lados.

 

Segue todo rico de jóias olhares quebrados

Que se enrabicharam pelo posto dele

E pela cor-de-jambo.

Cabo Machado é delicado gentil.

Educação francesa mesureira

Cabo Machado é doce que nem mel

É polido que nem manga rosa.

Cabo Machado é bem o representante de uma terra

Cuja Constituição proíbe as guerras de conquista

E recomenda cuidadosamente o arbitramento.

Só não bulam com ele!

Mais amor menos confiança!

Cabo Machado toma um geito de rasteira...

 

Mas traz unhas bem tratadas

Mãos transparentes frias,

Não rejeita o bom-tom do pó-de-arroz.

Se vê bem que prefere o arbitramento.

E tudo acaba em dansa!

Por isso Cabo Machado anda maxixe.

 

Cabo Machado... bandeira nacional!

Mário de Andrade