quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Ciclo da vida

Hoje fomos visitar o túmulo de meu pai e de minha avó. Perto de onde eles estavam havia um pássaro muito barulhento profundamente incomodado com nossa presença. Olhando melhor percebemos que ao lado de um outro jazigo tinha um ninho com 4 ou 5 ovos. Conclusão óbvia: todo o estardalhaço feito pelo pássaro com nossa chegada tinha um motivo bem claro: a mamãe estava defendendo suas crias! Durante alguns minutos toda a tristeza e o sentimento de perda e saudade inerente àquela situação foram substituídos por uma alegria motivada pelo paradoxo morte e vida! Tentamos nos aproximar para tirar uma foto, mas a mamãe pássaro demostrou que pelas suas crias lutaria até a morte! MORTE!

Ao longe uma coruja observava tudo.

Ao nos afastarmos, o passaro, que fazia muito barulho e literalmente nos ameaçava vindo em nossa direção, foi embora. Quando estávamos dentro do carro eis que chega um casal e mais que depressa o pássaro retoma sua posição de defesa/ataque, voltando para perto do jazigo/ninho.

Acho que não preciso dizer mais nada.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Estrela Perigosa

Estrela perigosa
Rosto ao vento
Marulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.
No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.

Clarice Lispector

domingo, 5 de janeiro de 2014

O Mais Feliz da Vida

Eu não tenho sono
Eu não tenho tempo
Eu só tenho olhos pra você
Há tempos eu não via
Página em branco
Força, redenção e amor

Isso por direito
Pro resto dá-se um jeito
Que venha a primavera agora
Faltava ousadia
Mas se rasga o peito
Acaba tudo em vermelho e lá fui eu

Eu não tive plano,
Eu não tive glória
Mas sonhei o seu melhor sonho
Tive sua mão
E agora sua mãe
Também quer ver o homem em mim

Já me vi tão triste
Tolo é quem insiste
Estar assim tão satisfeito
Faltava ousadia
Mas se rasga o peito
Acaba tudo em vermelho e lá fui eu

O mais feliz da vida
Sou eu
Com tudo exposto nas mãos

Eu, o mais feliz da vida
Sou eu
Com tudo exposto nas mãos
Com tudo exposto nas mãos
Com tudo exposto nas mãos
Com tudo exposto
Eu, o mais feliz da vida

ABMBDC

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Mas há a vida

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

Clarice Lispector