quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

34 (In Metal Rosicler)

Assim n água entraste
e adormeceste,
suicida cristalina.

Todos os mortos vivem dentro de uma lágrima:
tu, porém, num tanque límpido,
sob glicínias,
num claro vale.

Não vês raízes nem alicerces,
como os outros mortos:
mas o sol e a lua,
Vésper, a rosa e o rouxinol,
nos seis espelhos que te fecham por todos os lados.

Pode ser que também Deus se aviste,
nessa imóvel transparência.
E pode ser que Deus aviste teu coração,
e saiba por que desceste
esses degrau de cristal que iam para tão longe.

Ah!
é o que rogamos para sempre,
diante da tua redoma
onde dormes sozinha com os teus longos vestidos,
diante da tua transparente,

fria, líquida barca.

Cecília Meireles

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Romãs


Não deixaremos o jardim morrer de sede.
Mali asperge com um pouco d’água as plantas.
Como quem rega? Como quem reza.

Cada vaso recebe cinco ou seis gotas d’água
e mais o amor de Mali, um amor moreno, sério,
de turbante branco.

Não deixaremos o jardim morrer de sede.
Tudo já está calcinado. Pedra, cinza, areia.
Mali sacode a água dos dedos:
sementes de vidro ao sol.

As plantas são magras como donzelas
e assim gentis.

E duas pequenas romãs amadurecem,
rosa e marfim,

num casto vestido de folhas foscas.

Cecília Meireles

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Paisagem Mexicana

Passei pela terra seca,
sem arvore e sem arroio,
com suas casas caídas,
sua pena sem socorro.

O que avistei de mais vivo
foi o cemitério plano
onde uma índia cor da terra
de joelhos ia chorando.

A aguinha da sua lágrima
tão cansada vinha andando
como se arrastara séculos
essa carreta de pranto.

Ali no meio do mundo,
toda para o céu voltada,
única fonte na areia,
sozinha, a mulher chorava.

Talvez perguntasse aos santos:
“Por que se morre? e sentisse
que do céu lhe perguntavam

também: “Para que se vive?”.

Cecília Meireles

Canção

Não sou a das águas vista
nem a dos homens amada;
nem a que sonhava o artista
em cujas mãos fui formada.
Talvez em pensar que exista
vá sendo eu mesma enganada.

Quando o tempo em seu abraço
quebra o meu corpo, e tem pena,
quanto mais me despedaço,
mais fico inteira e serena.
Por meu dom divino faço
tudo a que Deus me condena.

Da virtude de estar quieta
componho meu movimento.
Por indireta e direta,
perturbo estrelas e vento.
Sou a passagem da seta
e a seta, - em cada momento.

Não digas aos que encontrares
que fui conhecida tua.
Quando houve nos largos mares
desenho certo de rua?
E de teres visto luares,
que ousarás contar da lua? 

Cecília Meireles

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Por baixo dos largos fícus

Por baixo dos largos fícus
plantados à beira-mar,
em redor dos bancos frios
onde se deita o luar,
vão passando os varredores,
calados, a vassourar.

Diríeis que andam sonhando,
se assim os vísseis passar,
por seu calmo rosto branco,
sua boca sem falar,
- e por varrerem as flores
murchas, de verem amar.

E por varrerem os nomes
desenhados par a par,
no vão desejo dos homens,
na areia vã, de pisar...
- por varrerem os amores
que houve naquele lugar.

Visto de baixo, o arvoredo
é renda verde de luar,
desmanchada ao vento crespo
que à noite regressa ao mar.

Vão passando os varredores;
vão passando e vão varrendo
a terra, a lembrança, o tempo.

E, de momento em momento,
varrem seu próprio passar...

Cecília Meireles

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Corrida de Jangada

Meu mestre deu a partida
É hora, vamos embora
Pros rumos do litoral
Vamos embora
Na volta eu venho ligeiro
Vamos embora
Eu venho primeiro pra tomar teu coração
É hora!
Ora, vamos embora
É hora, vamos embora
É hora, vamos embora
Vamos embora, ora, vamos embora!
É hora, vamos embora
É hora, vamos embora

Viração virando vai
Olha o vento, a embarcação
Minha jangada não é navio, não
Não é vapor nem avião
Mas carrega muito amor
Dentro do seu coração

Sou meu mestre, meu proeiro
Sou segundo, sou primeiro
Reta de chegar
Olha a reta de chegar
Mestre, proeiro
Segundo, primeiro
Reta de chegar
Reta de chegar

Meu barco é procissão
Minha terra é minha igreja
Noiva é rosário
No seu corpo vou rezar
Minha noiva é meu rosário
No seu corpo vou rezar

Ora!
Ora, vamos embora
Vamos embora
Vamos embora
Vamos embora
Vamos embora
Ora, vamos embora
Ora, vamos embora, nego

Edu Lobo e José Carlos Capinan

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Miguilim

"Miguilim, Miguilim, vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro!..."

- João Guimarães Rosa, em "Corpo de Baile". [Edição Comemorativa 50 anos (1956-2006)]. v. I e II. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 100.